Publicado por: Vevila | Novembro 3, 2009

A Estrutura da Lembrança

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Difícil é entender como funciona a estrutura da lembrança. A recordação, batendo pungente na cavidade do coração, latejando nas veias das têmporas, ardendo por toda a extensão da pele do rosto. Essa tarde, fazendo compras num grande supermercado, aquele calor de aglomerações humanas, o barulho e a tensão do caixa e dos pagamentos, tudo conspirava para uma falta de atenção e uma displicência para com todas as outras coisas que não meu próprio umbigo. Mas, de tanto olhar para o meu umbigo, acabei levantando os olhos e me deparando com uns olhos que há muito não via, mas que me apareceram tão atuais, tão reais, tão concretos, aquele olhar como se nunca se tivesse desviado do meu, e a minha lembrança latejou, me remetendo àqueles tempos acadêmicos de sofás, cervejas e paixões inomináveis, coisas que só a seu tempo pertenciam e tendem, com o seu próprio tempo, a ficar domadas, mas a postos, para uma descarga de recordações que se aciona ao mínimo roçar de um olhar familiar.

Naquele sofá, sentaram-se os dois. Um horário de almoço tão tenso, e tão vazio. Eu e ele, sozinhos, desconstruindo o fosso, por uma ponte tecida pelos descaminhos da vida. Apesar da desconstrução do fosso, ele ainda fugia. As minhas pretensões saltavam aos olhos, dele e de todos, mas ainda assim não havia ninguém. Só pretendia a ele, que fugia e reconstruia o fosso.

Um dia fomos ao clube. Despretensiosamente, (já que a essa altura minhas pretensões se haviam desfeito), como amigos, deitamos ao largo da piscina, e falamos de sexo. Falamos de biquínis, de churrasco, de cachaça e de Geografia. Falamos de arte e de vida. E, pela primeira vez de fato, falamos. Alguém fez de nós uma fotografia, não sei se imaginando o eternizar daquele lado a lado. Uma de minhas mais belas fotografias, aquela que passou anos invertida no porta-retrato, indefensável, como aquela tensão que nos tangia por dentro, durante longos e longos tempos. Os olhos dele tensionados pela luminosidade, a minha cara de sono, as roupas de banho, tão pequenas, aparecendo como tiras de pano, estreitas. Parecia um filme de férias estudantis.

Depois desse dia falamos ainda muitas vezes. O fosso se havia fechado. E sempre falávamos das mesmas coisas: de sexo, de biquínis, de churrasco, de cachaça e de Geografia. Nossas frases tiveram sempre um tom coincidente, como se nossos superegos fossem peças distintas de um mesmo quebra-cabeça. Sentamos lado a lado e sorrimos, naquela tarde, como que prevendo, pressentindo a noite que teríamos. Lado a lado, bancos altos, no fundo da sala, a aula correndo a luzes difusas, ele me beliscou. Piscou. Eu só sorri: já sabia.

Naquela noite nós bebemos. Eu ainda não bebia de repente comecei a beber, e a sede que me consumia exigia algo fortemente contextualizado. Então, diante dele, abri uma long-neck. Fiquei curiosa por saber: por que Malzbier? Por que uma cerveja como aquela, numa situação como aquela, precisava ter um nome tão sonoro? De pronúncia tão farta e recheada de sons guturais? Talvez por isso, sob o efeito mais que relaxante do álcool da Malzbier, comecei a emitir sons guturais. Mais guturais e lânguidos do que os que emitira naquele fim de tarde, em que eu e ele nos falamos pela primeira vez de perto, regados a Antarctica e sob a luz de um abajur, no mesmo sofá do Centro Acadêmico. Ao lado dele.

Murmurei. Sussurrei. Emiti sons e mais sons de Malzbier, e ele me ouviu. Falamos, e sobretudo, de sexo. A mais murmurada, sussurrada e gutural das palavras soou pungente aos ouvidos dele. “Sexo? Então vamos.”. E nunca mais um drive-thru foi tão incendiado. Sim. O drive-thru, o banheiro de serviço, o carro do melhor amigo, o estacionamento.

Agora todas as nossas falas eram guturais. Falávamos mais e mais de perto, as bocas coladas num beijo tenso e arredio, de caráter ilegal, escondido por detrás de muros e véus.

Ele namorou. Eu sobrei. Sobrei conscientemente, sem dor ou satisfação. Apenas sobrei. Mas sobrei com majestade, e uma certeza de retorno que não me deixava dormir. Até o dia em que a comunicação explodiu. As letras escritas em um momento de solidão detonaram a barreira e, sucumbindo ao inevitável encaixe de nossas peças, colamos novamente os lábios num beijo de falas guturais adúlteras e cada vez mais ilícitas.

E fora adultério. Num tempo sem fim, sem liberdade. Colamos nossos lábios nas falas. E foi uma profusão de peitos, bundas, barrigas, putas, caralhos, bucetas e boquetes, prosódias impudicas e sujas, a fala se tornando corpo, se virando em carne, acima e além das convenções e proibições. A escuridão e a claridade, a noite ou o dia, tudo era cenário e ocasião, aquele sentimento de sei lá o que, invadindo nossas mentes e as esvaziando; quando juntos, éramos só carnes: coração e todas as outras carnes, aquele desejo de calor intraduzível, um sexto sentido que tomava nossos corpos e nos fazia insignificantes, fundindo-nos um no outro, fodendo, com ou sem a permissão da palavra. Os nossos olhares causavam uma febre que aguçava todos os nossos sentidos, e então éramos apenas um para o outro sem passado ou futuro, sem pretensões ou projetos; éramos apenas momento e desejo. Enfim, sem palavras para descrever a situação. Éramos tão além do espírito que fica impossível espiritualizar nossa vivacidade da carne.

Uma vez no meu quarto; o vento, o medo, o sol se derramando da janela, com uma impiedade que tornava possível ouvir o barulho de seu toque no chão, e nós na cama. Outras e muitas vezes no quarto, na sala, na cozinha, no elevador, no corredor e em todo o seu apartamento. Agora falávamos de sexo, sempre lado a lado e com os lábios colados. E não só falamos como fizemos. Fizemos sexo como adolescentes, e fizemos como gente grande. Fizemos onde pudesse, na hora em que desse, sem bloqueios de legislações ou exigências de depilações. Sem banho e sem mediocridade. Sem medo e sem responsabilidade.

E quando fazíamos, virávamos uma coisa só. Um amálgama de nuvens e supernovas, um monte de carnes frementes, que se separavam sem dor, ao final de cada carnaval dantesco e despudorado, que eram nossos encontros. Era mesmo assim que nos separávamos. Talvez com beijos, talvez não. Talvez com telefonemas, talvez não. Na verdade, não importava, porque sempre, planejando ou não, nos topávamos de novo, em movimentos ilícitos de pelve e de moral.

Nosso caso foi assim, em síntese, escandaloso. Conhecemos cada recôndito do corpo um do outro, cada orifício, sugando impetuosamente a fibra do nosso tempo, num ímpeto de paixão carnal só possível nos mais eróticos (ou mesmo pornográficos) escritos de todos os tempos. Flaubert se envergonharia. Nabokov se enojaria. Nossos fluidos, todos eles, trocados, derramados, espalhados, engolidos, lambuzando e recobrindo nossa pele, nossos dedos, nossa boca. Eu gostava dos pêlos dele. Gostava do seu cheiro, da sua pele, do seu peito e do seu abdome. Gostava dos seus olhos e do seu olhar, das suas pernas, da sua voz dizendo absurdos e obscenidades que me enchiam de lisonja e desejo, porque era a nossa comunicação interpessoal mais secreta, íntima e intransponível. E nunca senti remorso. Gostava, fazia, repetia, fazia outra vez, sem nunca sentir remorso. Algo inerente, que nunca soube explicar, me dava este direito. Era o meu poder, o meu lugar, quase que o meu dever, a minha meta, a minha vocação. E me sentia em casa.

O que aconteceu depois, não sei. Como acabou, não sei. Se ela descobriu, ou se eles casaram, não sei. Se nos apaixonamos ou nos odiamos, apesar de nunca termos deixado de ser amigos, não sei. E prefiro jamais saber. Sei que do escândalo do nosso caso, um “amor” maquiado ou um “desamor” inconformado, restaram aquelas supernovas profusas que brilhavam nos nossos olhos quando nos devorávamos de olhos abertos. E foi exatamente esse olhar, vindo direto dele, como quando estava por cima de mim, um olhar profundo e amalgamado de nuvens e supernovas, que vi, quando nos topamos hoje, na pressa e tensão de uma fila de supermercado, passados dez anos da nossa última despedida trêmula e úmida, talvez sem beijos, talvez não.

Publicado por: Vevila | Setembro 25, 2009

Shesmovedon

90283476Eu mudo, tu mudas, ele muda.

De dentro desta atmosfera de mudanças, escrevo e subscrevo.

Houve reforma na minha casa. Acabou há mais ou menos 1 hora. Mudei de quarto, joguei muito lixo fora; resgatei os pesos de Kegel, a máquina fotográfica, um chaveiro que meu irmão trouxe de Salvador, um vestido pouco usado.

De dentro do turbilhão, outras reformas ocorreram – e ainda estão ocorrendo.

Entrei no mundo dos mestrandos (ou aspirantes a), organizei um cronograma diário, troquei meu aparelho celular (o outro morreu de repente), trabalhei como modelo, aprendi a fazer pão. Fui à ginecologista, terminei o RPG, comecei a ler “Razão e Sensibilidade”. Assisti duas temporadas de Californication na sequência. Fui a um show da Angélique Kidjo.

Ouvi bronca. Foi ruim. Virei amélia e gostei. Ganhei novas cicatrizes.

Tive preconceito, sofri preconceito, fui criticada, fui elogiada. Pensei sobre o meio-ambiente, senti saudades de tempos passados, senti saudades de tempos futuros, fui a um show do Sepultura, mandei o meio-ambiente à puta que o pariu e comprei um coletor menstrual. “Não se nasce mulher, torna-se” – disse Simone de Beauvoir – e estou me tornando. É muito bom, muito forte, muito intenso.

Desejei ardentemente me conhecer por dentro, me virar ao avesso, fazer um silêncio tão intenso que tornasse possível ouvir meus cabelos crescendo. Quis invadir conscientemente meus sonhos, ir a uma cerimônia Wicca, rezar um terço e mandar fazer um padê. Quis fazer um curso de culinária, mas o dinheiro não deu. Quis fazer uma tatuagem, mas toda hora mudo de idéia. Quis saber de que matéria somos feitos, a que parte do universo pertencemos, quais são as diferenças entre nós, se os E.T.s existem. Quis voltar no tempo, corrigir os erros, repetir os erros, fazer melhor. Quis ser mais organizada, mais concentrada, mais disciplinada e menos rabugenta. Quis ser mais bagunceira, mais distraída, mais relaxada e menos engraçadinha. Eu quis ser um paradoxo no mundo: uma modelo vegetariana, gorda*, católica, bem-comida e feliz.

Eu quis e quero fazer e ser todas essas coisas. Estou em processo, acho que sempre estarei. Isso me irrita um pouco, mas de modo geral, me deixa feliz. É sinal de evolução. É sinal de que estou viva. E como estou.

A reforma em casa acabou, mas ainda falta a faxina. A reforma na vida continua, mas a faxina eu vou fazendo enquanto isso.

*Gorda porque, pelo que pude perceber no último trabalho como modelo, se você não tiver 10 kg  menos do que o valor da sua altura, você é gorda. Então, eu sou gorda, beijos.

P.S.: Eu vou voltar a usar o blog pro que ele se destina: falação. Vai me ajudar muito em outros aspectos do “quero fazer”.

Publicado por: Vevila | Julho 19, 2009

Fumaça

87982486O cigarro, e eu não fumo. Essa luminária passei meses juntando o troco do almoço pra comprar, ela funciona com uma pequena lâmpada halógena de 20 watts. Ilumina a mesa onde coloquei a noite num jogo de jantar barato de porcelana Schmidt. Não tenho muita vontade de jantar hoje.

As horas passam desconexas, a uma velocidade diferente em cada relógio da casa. Uma sensação desconhecida de algo esmagando meu peito às vértebras, não tenho condições de voar. Nem mesmo de gemer. Tudo está distante, eu estou distante, mas não estranho isso, é o estado físico em que minha matéria se encontra. Volátil.

Eu não queria a vida desse jeito. Meus olhos ressequidos e opacos contra a tela, emboscando um arremedo de movimento, mesmo sabendo que não haverá captura, nem mordida, nem alimento. Fumaça.

(A luz hospitalar do monitor ilumina minhas mãos e elas estão envelhecidas, acariciando umas às outras em tom nervoso.)

“E continua o teu sorriso no meu peito. Essa saudade, o cigarro, a luz acesa. E esta noite posta sobre a mesa. Em cada canto da casa, asa partida e dor. Gemido morto, amor. Tão longe vai. Tão longe vou…”

(sob a inspiração de Raimundo Fagner na linda e dolorida canção “Asa Partida”. Ninguém fala de saudade como ele.)

Publicado por: Vevila | Julho 18, 2009

Eu volteeei…

Juro que volto a postar, meus 0.4 leitores. Tô escrevendo na cama e amanhã publicarei. Saravá.

Publicado por: Vevila | Abril 25, 2009

Mess Around

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Eu não consigo me organizar.

Tenho 2 agendas, 1 computador, 1 celular, 1 quadro de avisos, 1 porta-recados, 1 despertador e nada – não consigo me organizar.

Olho ao redor e está tudo espalhado. Papéis, garrafas, roupas, calçados, fios, frascos, cremes, blisteres de comprimidos. E por mais que eu compre cabides, gaveteiros, caixas, criados, estantes, está tudo fora de lugar. Isso me enlouquece.

Eu já tenho rugas. “Marcas de expressão”, na verdade. Comprei um anti-sinais de primeira qualidade, mas tenho ido para a cama tão tarde que nunca lembro de usar. Tiro as roupas, jogo para o lado, elas pousam sobre uma cadeira, e depois umas sobre as outras. Vira uma árvore de Natal. Eu juro que tenho um cabideiro, mas a preguiça de pendurá-las retas e esticadas é maior do que eu. E vou dormir às duas da manhã, com a pele cheia de óleo e restos de rímel e minha cama cercada de árvores de Natal.

E os papéis. Odeio papéis. Já sonhei digitalizá-los todos e salvá -los no HD, pra depois incinerá-los. Eles formam montanhas de celulose sobre as superfícies, e eu nunca sei quais posso jogar no lixo. Já chorei muito sobre o papel incinerado.

Eu tenho um ciúme infeliz. Se você for como eu, nunca ligue para um homem sexta-feira à noite, quando você não está com ele.

Já tenho o tênis, as roupas, o programa de corrida e os quilos a mais, mas não consigo começar a correr.

Eu tenho muita raiva de algumas coisas. Mais de coisas do que de pessoas, o que já é um bom começo.

Eu tenho pensado em ser mãe. Depois penso em tudo isso e mudo de idéia.

Eu tenho dívidas, cólicas, amigos, dinheiro, idéias, preguiça, trabalho, receitas, roupas, móveis, papéis, diplomas, raiva, ciúmes, amor. E não, definitivamente, não consigo me organizar.

O que eu não tenho é vergonha na cara.

Mas tenho vivido um bocado. (Ainda bem.)

Publicado por: Vevila | Dezembro 30, 2008

Réveillon

sb10067820ba-00125 réveillons. No primeiro, eu estava na barriga e pronta pra nascer. Pra ser mais exata, 10 dias depois eu estaria ali começando tudo, tudinho.

Hoje, às vésperas de mais um réveillon, estou de pijamas refletindo sobre essa coisa toda de virar o ano, mudar de perspectivas, entrar na magia do réveillon. Eu sou uma dessas pessoas que acreditam que, quando se conta de 10 a zero e se grita “feliz ano novo”, a gente realmente passa por um portal místico, esotérico ou coisa que o valha, e pronto, inaugura-se um novo ano. Como se um ato humano fosse capaz de inaugurar o que quer que fosse: um ano, uma vida, uma era geológica.

O que sei é que 2008 está acabando. Que ano mais louco. E daqui a 10 dias eu faço 25 anos. Sei que estou fazendo 25 anos porque engordei 5 kg esse ano – talvez mais. Estou cheia de celulites e culote, e minha pele está uma merda. Tem hora que eu paro diante do espelho pra ver o que posso fazer pro meu cabelo ficar diferente. Abro o armário e PUTZ, não tenho nada pra vestir hoje. Fiquei fútil? Não, fiquei mais velha mesmo. E vou te contar uma coisa: estou virando mulher.

Não páro de pensar no ano que entra e no que vai mudar quando ele começar. Ainda não deixei de lado o sentimento de um ano começando com cadernos e livros novos, novo uniforme, nova turma na escola, um novo lugar na sala de aula, colegas novos. Ano Novo é vida nova, pelo menos na minha cabeça, na minha lembrança. Será que esse ano eu vou começar minha segunda faculdade? Será que vou fazer novos amigos? Será que vou casar, engravidar? Será que vou me mudar pra outro país? Ou será que nada, nadinha vai mudar no ano que entra?

Isso é absolutamente impossível. Eu preciso que 2009 seja novo!

Estou aqui viajando, escrevendo para um público fantasma, divagando sobre alguma coisa vazia. Já encomendei meu primeiro potinho de Chronos, e já estou planejando entrar na dieta dos pontos e na academia. Juro pra você que uma das abas do meu Firefox é uma pesquisa sobre o Dream Week, e tenho vergonha disso. Muito provavelmente, não vou vestir calça sarouel e nem calçar sandália gladiadora. Continuarei usando minha camiseta do Mussum. Estou com meu caderninho cheio de contas que fiz pra saber quanto dinheiro preciso economizar pra fazer minha grande viagem em 2009.

Mas de uma coisa eu ainda tenho certeza e não desisti: em 2009 eu quero ser uma pessoa muito melhor. Muito melhor do que fui em 2008 ou 2007 ou 1984… embora quisesse voltar a ter aquela pele.

Então, se alguém estiver lendo, seja quem for… feliz ano novo. Muito melhor do que 2008.

Publicado por: Vevila | Outubro 20, 2008

Jantar do Século

Lance inicial: R$ 5.000,00

Amigos, aceito depósito em conta corrente, transferência ou doação em mãos. Cheque também. Beijos.

Publicado por: Vevila | Outubro 14, 2008

ÃO X ON

Fresh salmon filet, close-up

Eu ainda me lembro, como se fosse hoje, da primeira vez que me ofereceram salmão defumado.
Eu ainda tinha dúvidas se salmão era cor ou peixe, se peixe era salmão ou salmon. Até que passei a trabalhar num local onde tive o melhor chefe do mundo (outro dia falo sobre ele), e ele tinha o costume de almoçar com a equipe. Este cara me levou pra almoçar um dia. Nem perguntou o que eu queria, apenas me guiou ao local, um charme pequenino chamado “Café Quotidien”, hoje extinto. Pediu duas saladas de salmão, eu achei um barato – sempre adorei experimentar. Enquanto conversávamos, eu namorava a torta de limão e a máquina de espresso, mesmo que eu não tomasse café.

Chegou o almoço. Eu senti uma aflição, aquelas cinco fatias de salmão meio cru, translúcido, dava pra ver as folhas verdes por baixo.
- Eu nunca comi peixe cru.
- Não é cru, é defumado. Se gostar, gostou, se não gostar, aí não come, pede outra coisa e tá tudo certo.
Espetei a aflição e furei o salmão com o garfo. Peguei um pouco da salada e de molho, pra não enfrentar o filé sozinho. Mordi de uma vez, fui inundada por uma sensação nova. Peguei apenas salmão, dessa vez com pouco molho, mordi, mastiguei, ele dançou polka na minha língua. Eu não conseguia respirar, peguei apenas salmão, puro, só ele, uma espécie de carpaccio defumado, ele tinha um cheiro agreste, era uma coisa. Recebi o salmão na boca, ele dançou o Bolero de Ravel lá dentro. Eu mastiguei mais aflita ainda, desta vez quase pedindo mais um prato que aquele não ia dar, e fui degustando cada nível de sabor, experimentando cada textura combinada, alfaces, tomate-cereja, rúcula, molho de mostarda. Fechei os olhos e rezei baixinho pela alma do salmão e de todos os que eu comeria depois dele, e só então senti aquela cócega, aquele contraste, aquele desespero de saliva. Acho que foi meu primeiro orgasmo gastronômico.

Depois deste dia, eu tive noção do que tinha acontecido na minha casa quando meu pai foi ao quintal, juntou alguns tijolos e improvisou um forno. Temperou o salmão, não vi com o que, embrulhou num papel-alumínio e colocou no forno de tijolos. Ele saiu assado em sua própria gordura, despetalando-se todo, e o cheiro invadia a casa. No dia do salmão defumado, eu tive vontade de voltar no tempo para não ser tão displicente com este evento tão magnífico.

Minhas experiências seguintes com esta maravilha das águas geladas foram acompanhadas de um ingrediente especial: amor.
Quando meu amor voltou de uma longa temporada fora do Brasil, me levou a uma creperia tradicional da cidade. Neste dia, cercada que eu me sentia por coisas doces, sublimes e divinas, decidi comer algo diferente. E este era o prato, uma massa fina de crepe recheada de pêras levemente cozidas com queijo brie, e no topo algumas fatias de salmão defumado, de novo, mas dessa vez muito mais fino e com aparência de cru. Junto com a experiência de ver meu amor voltando da guerra, jantando comigo num ambiente romântico onde eu nem mesmo acreditava estar, degustei a coisa mais diferente da minha vida. Foi sublime, foi galáctico, e se chamava Edith Piaf, o prato.
Já em lua-de-mel extemporânea na cidade de Pirenópolis, rodamos a cidade toda atrás de um jantar, depois de um dia cansativo em que acordamos às 10, tomamos café, trilha entre árvores, banho de cachoeira (uma canseira, imagine). Paramos numa creperia (de novo), mas eu não pediria crepe. Vi uma proposta estranha, um hambúrguer de salmão, mas a fome era tanta e a preguiça tamanha, que eu nem me importei com a possibilidade de ser um empanado. Mas não era. Veio um enorme pão com gergelim, uma salada fresca ao molho de mostarda (de novo). Era grande que não dava pra levar à boca, só com um garfo. E ali, mais um prazer indescritível. Muita carne, suculenta, grelhada por igual, com um tempero de ervas claramente frescas. E um queijo muito suave. O pão era artesanal, novo, perfumado (é a diferença que faz um pão especial). Eu voltei a não acreditar naquilo que minha boca experimentava – e nunca mais menosprezarei um sanduíche na minha vida.

Entre os ingredientes que preciso aprender a manipular, os peixes estão em primeiro. Não sei mexer com eles, mas o jeito que eles mexem comigo me faz sentir intrigada a criar estratégias para que os peixes não se debatam e fujam da minha criatividade. Especialmente esse peixe rosa, que exige de muito bom gosto para mostrar o gosto bom que tem.

P.S.: Meu desafio à vista: além de aprender a cozinhar o salmão, comer um sashimi do mesmo (o salmão definitvamente cru) e… ovas. Quanta aflição.

Publicado por: Vevila | Outubro 2, 2008

A frigideira e o sonho

Eu tenho esse sonho: ser cozinheira.

Antes que digam que eu tenho esse sonho porque sou comilona, eu digo logo: adoro comer, mas comida é algo mais.

Comida é isso que desejamos todo dia. Comida é combustível, comida é prazer, comida é desculpa pra reunir as pessoas queridas e passar horas agradáveis. Quero ser cozinheira um dia porque saber manejar bem uma comida é tornar-se o mago do prazer essencial à vida humana.

Eu tenho paixão por comida.

Quando eu vejo um restaurante bonito, com ares de que foi projetado para receber as pessoas como um abraço de amigo, eu fico trêmula. Ontem mesmo, fui jantar e, no salão, havia um quadro, era uma foto. Um queijo Gouda, uma ricota fresca e um cheddar muito amarelo dividiam espaço com uma trança de cabeças de alho, ciboulletes, espinafre, um jarro de azeite e, no centro, uma tábua com muitos crepes empilhados, prontos para o recheio, o molho, o prato, o amor. Quando vi o quadro, senti aquilo que a gente sente quando vê o namorado chegando. Imaginei os cheiros todos, imaginei os ingredientes se mesclando, namorando entre si, e o felizardo com o prato na frente, se apaixonando primeiro pela cor, depois pela beleza, pelo cheiro, pela temperatura, pelo sabor, pela textura, pela harmonia com o molho, o pão, o azeite, o vinho, o ambiente. A comida fazendo carinho no comensal.

Comida é carinho. É o suspiro (não necessariamente aquele doce) que me dá quando eu leio um bom livro sobre o assunto, quando eu vejo um ingrediente novo, quando provo um prato diferente. Pra ser sincera, eu sou louca por comida.

Antes que você me pergunte, eu me formei em Geografia. Mas a comida, esta me chama todos os dias, não pra me acariciar, mas para que eu pense nela, me dedique a ela, e abra as portas para o meu próprio acariciar às pessoas. Acho que isso é porque quando eu sonhava, meu sonhos eram abafados como se abafa um couscous – eu só queria carinho, dar e receber. E eu não sei como será, se enfrentarei o couscous abafado, mas eu acho, sinceramente, que vou acabar me rendendo a ela. Porque comida fala alto – quando você diz “não” a ela, seu corpo ronca. Mesmo. E o meu tem roncado, porque eu ando com muita fome ultimamente.

Publicado por: Vevila | Setembro 24, 2008

Mercado de ações

- Essa semana eu vi notícia de três moças “virgens” vendendo suas “virgindades” pela internet.
- Três? Mas não era só uma doida lá que queria a grana pra pagar a faculdade?
- Outras duas. Uma que era do Big Brother italiano, a outra é a sobrinha da Gretchen, que vendeu por R$ 500.000 pra Brasileirinhas.
- Olha aí… a italiana deve estar com a popularidade lá em cima, vai ganhar uma nota.
- O que me deixa triste é que, no meu tempo, a gente tinha sonhos. Um namorado gatinho, um jantar à luz de velas, um eu te amo, beijos carinhosos, depois sim a coisa toda.
- Mas elas também têm sonhos, ué. Uma BMW, um apartamento duplex, uma viagem pra Dubai, um anel de platina com um diamante rosa.
- Antigamente, isso era prostituta.
- Vai entender. Antigamente, eram os travecos que queriam ser iguais às mulheres. Hoje em dia, são as mulheres que querem ficar iguais aos travecos – vide essas coisas “Boing Boing” aí. Vai que ser “moça direita” hoje em dia é isso.
- É, eu devo ser uma quadrada mesmo.

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