
Difícil é entender como funciona a estrutura da lembrança. A recordação, batendo pungente na cavidade do coração, latejando nas veias das têmporas, ardendo por toda a extensão da pele do rosto. Essa tarde, fazendo compras num grande supermercado, aquele calor de aglomerações humanas, o barulho e a tensão do caixa e dos pagamentos, tudo conspirava para uma falta de atenção e uma displicência para com todas as outras coisas que não meu próprio umbigo. Mas, de tanto olhar para o meu umbigo, acabei levantando os olhos e me deparando com uns olhos que há muito não via, mas que me apareceram tão atuais, tão reais, tão concretos, aquele olhar como se nunca se tivesse desviado do meu, e a minha lembrança latejou, me remetendo àqueles tempos acadêmicos de sofás, cervejas e paixões inomináveis, coisas que só a seu tempo pertenciam e tendem, com o seu próprio tempo, a ficar domadas, mas a postos, para uma descarga de recordações que se aciona ao mínimo roçar de um olhar familiar.
Naquele sofá, sentaram-se os dois. Um horário de almoço tão tenso, e tão vazio. Eu e ele, sozinhos, desconstruindo o fosso, por uma ponte tecida pelos descaminhos da vida. Apesar da desconstrução do fosso, ele ainda fugia. As minhas pretensões saltavam aos olhos, dele e de todos, mas ainda assim não havia ninguém. Só pretendia a ele, que fugia e reconstruia o fosso.
Um dia fomos ao clube. Despretensiosamente, (já que a essa altura minhas pretensões se haviam desfeito), como amigos, deitamos ao largo da piscina, e falamos de sexo. Falamos de biquínis, de churrasco, de cachaça e de Geografia. Falamos de arte e de vida. E, pela primeira vez de fato, falamos. Alguém fez de nós uma fotografia, não sei se imaginando o eternizar daquele lado a lado. Uma de minhas mais belas fotografias, aquela que passou anos invertida no porta-retrato, indefensável, como aquela tensão que nos tangia por dentro, durante longos e longos tempos. Os olhos dele tensionados pela luminosidade, a minha cara de sono, as roupas de banho, tão pequenas, aparecendo como tiras de pano, estreitas. Parecia um filme de férias estudantis.
Depois desse dia falamos ainda muitas vezes. O fosso se havia fechado. E sempre falávamos das mesmas coisas: de sexo, de biquínis, de churrasco, de cachaça e de Geografia. Nossas frases tiveram sempre um tom coincidente, como se nossos superegos fossem peças distintas de um mesmo quebra-cabeça. Sentamos lado a lado e sorrimos, naquela tarde, como que prevendo, pressentindo a noite que teríamos. Lado a lado, bancos altos, no fundo da sala, a aula correndo a luzes difusas, ele me beliscou. Piscou. Eu só sorri: já sabia.
Naquela noite nós bebemos. Eu ainda não bebia de repente comecei a beber, e a sede que me consumia exigia algo fortemente contextualizado. Então, diante dele, abri uma long-neck. Fiquei curiosa por saber: por que Malzbier? Por que uma cerveja como aquela, numa situação como aquela, precisava ter um nome tão sonoro? De pronúncia tão farta e recheada de sons guturais? Talvez por isso, sob o efeito mais que relaxante do álcool da Malzbier, comecei a emitir sons guturais. Mais guturais e lânguidos do que os que emitira naquele fim de tarde, em que eu e ele nos falamos pela primeira vez de perto, regados a Antarctica e sob a luz de um abajur, no mesmo sofá do Centro Acadêmico. Ao lado dele.
Murmurei. Sussurrei. Emiti sons e mais sons de Malzbier, e ele me ouviu. Falamos, e sobretudo, de sexo. A mais murmurada, sussurrada e gutural das palavras soou pungente aos ouvidos dele. “Sexo? Então vamos.”. E nunca mais um drive-thru foi tão incendiado. Sim. O drive-thru, o banheiro de serviço, o carro do melhor amigo, o estacionamento.
Agora todas as nossas falas eram guturais. Falávamos mais e mais de perto, as bocas coladas num beijo tenso e arredio, de caráter ilegal, escondido por detrás de muros e véus.
Ele namorou. Eu sobrei. Sobrei conscientemente, sem dor ou satisfação. Apenas sobrei. Mas sobrei com majestade, e uma certeza de retorno que não me deixava dormir. Até o dia em que a comunicação explodiu. As letras escritas em um momento de solidão detonaram a barreira e, sucumbindo ao inevitável encaixe de nossas peças, colamos novamente os lábios num beijo de falas guturais adúlteras e cada vez mais ilícitas.
E fora adultério. Num tempo sem fim, sem liberdade. Colamos nossos lábios nas falas. E foi uma profusão de peitos, bundas, barrigas, putas, caralhos, bucetas e boquetes, prosódias impudicas e sujas, a fala se tornando corpo, se virando em carne, acima e além das convenções e proibições. A escuridão e a claridade, a noite ou o dia, tudo era cenário e ocasião, aquele sentimento de sei lá o que, invadindo nossas mentes e as esvaziando; quando juntos, éramos só carnes: coração e todas as outras carnes, aquele desejo de calor intraduzível, um sexto sentido que tomava nossos corpos e nos fazia insignificantes, fundindo-nos um no outro, fodendo, com ou sem a permissão da palavra. Os nossos olhares causavam uma febre que aguçava todos os nossos sentidos, e então éramos apenas um para o outro sem passado ou futuro, sem pretensões ou projetos; éramos apenas momento e desejo. Enfim, sem palavras para descrever a situação. Éramos tão além do espírito que fica impossível espiritualizar nossa vivacidade da carne.
Uma vez no meu quarto; o vento, o medo, o sol se derramando da janela, com uma impiedade que tornava possível ouvir o barulho de seu toque no chão, e nós na cama. Outras e muitas vezes no quarto, na sala, na cozinha, no elevador, no corredor e em todo o seu apartamento. Agora falávamos de sexo, sempre lado a lado e com os lábios colados. E não só falamos como fizemos. Fizemos sexo como adolescentes, e fizemos como gente grande. Fizemos onde pudesse, na hora em que desse, sem bloqueios de legislações ou exigências de depilações. Sem banho e sem mediocridade. Sem medo e sem responsabilidade.
E quando fazíamos, virávamos uma coisa só. Um amálgama de nuvens e supernovas, um monte de carnes frementes, que se separavam sem dor, ao final de cada carnaval dantesco e despudorado, que eram nossos encontros. Era mesmo assim que nos separávamos. Talvez com beijos, talvez não. Talvez com telefonemas, talvez não. Na verdade, não importava, porque sempre, planejando ou não, nos topávamos de novo, em movimentos ilícitos de pelve e de moral.
Nosso caso foi assim, em síntese, escandaloso. Conhecemos cada recôndito do corpo um do outro, cada orifício, sugando impetuosamente a fibra do nosso tempo, num ímpeto de paixão carnal só possível nos mais eróticos (ou mesmo pornográficos) escritos de todos os tempos. Flaubert se envergonharia. Nabokov se enojaria. Nossos fluidos, todos eles, trocados, derramados, espalhados, engolidos, lambuzando e recobrindo nossa pele, nossos dedos, nossa boca. Eu gostava dos pêlos dele. Gostava do seu cheiro, da sua pele, do seu peito e do seu abdome. Gostava dos seus olhos e do seu olhar, das suas pernas, da sua voz dizendo absurdos e obscenidades que me enchiam de lisonja e desejo, porque era a nossa comunicação interpessoal mais secreta, íntima e intransponível. E nunca senti remorso. Gostava, fazia, repetia, fazia outra vez, sem nunca sentir remorso. Algo inerente, que nunca soube explicar, me dava este direito. Era o meu poder, o meu lugar, quase que o meu dever, a minha meta, a minha vocação. E me sentia em casa.
O que aconteceu depois, não sei. Como acabou, não sei. Se ela descobriu, ou se eles casaram, não sei. Se nos apaixonamos ou nos odiamos, apesar de nunca termos deixado de ser amigos, não sei. E prefiro jamais saber. Sei que do escândalo do nosso caso, um “amor” maquiado ou um “desamor” inconformado, restaram aquelas supernovas profusas que brilhavam nos nossos olhos quando nos devorávamos de olhos abertos. E foi exatamente esse olhar, vindo direto dele, como quando estava por cima de mim, um olhar profundo e amalgamado de nuvens e supernovas, que vi, quando nos topamos hoje, na pressa e tensão de uma fila de supermercado, passados dez anos da nossa última despedida trêmula e úmida, talvez sem beijos, talvez não.
Eu mudo, tu mudas, ele muda.
O cigarro, e eu não fumo. Essa luminária passei meses juntando o troco do almoço pra comprar, ela funciona com uma pequena lâmpada halógena de 20 watts. Ilumina a mesa onde coloquei a noite num jogo de jantar barato de porcelana Schmidt. Não tenho muita vontade de jantar hoje.
25 réveillons. No primeiro, eu estava na barriga e pronta pra nascer. Pra ser mais exata, 10 dias depois eu estaria ali começando tudo, tudinho.


