Publicado por: Vevila | 1 01UTC abril 01UTC 2010

Memento Mori

Ele faleceu. Eufemismando, fez a passagem. Bateu as botas, dobrou o espigão, viajou, entregou a alma a Deus, partiu, foi pra terra do pé junto, expirou, foi comer capim pela raiz, vestiu o paletó de madeira, deixou este mundo, descansou, adormeceu, alcançou êxito letal, entrou em óbito. Morreu, simplesmente.

Fazia parte daquela pequena confraria de negros batistas, que então o velaram entre cânticos e o sepultaram da mesma forma. Sepultaram-no ao som de spirituals e, ao cair da tarde, saindo do cemitério, cantaram When The Saints Go Marchin’ In. Ou mesmo Glory Glory Halleluja. Quem sabe até Oh Happy Day. Fecharam os portões e ali ficou o ex vivente, agora mais um nobre habitante de uma das muitas necrópoles da Terra. E os ainda viventes… estes vão viver. Até o fim.

Essa vida é uma piada. Você morre, ela continua.

Num mundo em que todo mundo almeja somente a felicidade e uma vida infinita, a mínima menção da finitude da vida é ofensiva. Morrer é impensável. A morte dos amados é enlouquecedora.

Mas reflita. Este corpo que você malha diariamente, alimenta com orgânicos, descansa com belas noites de sono, cobre de metais nobres, veste com algodão egípcio, tatua, maquia, masturba, depila… este corpo vai morrer. Simplesmente vai perder suas funções vitais, vai esfriar, ficar roxo e duro, depois vai inchar, derreter, feder repulsivamente, virar um monte de carne podre e chorume, depois um esqueleto amarelecido, depois o pó. Tornaremos a ser a matéria prima de que fomos feitos – terra. Do pó viemos, ao pó voltaremos. Ash to ash, dust to dust. Sad but true.

É pra isso que construímos impérios. Pra isso trabalhamos, estudamos, praticamos a arte, formamos família. Para morrer. E com esta expectativa, a única que certamente se confirmará, construímos pirâmides, Taj Mahals, Mausoléus de Halicarnasso. Mas não adianta. Nós não usufruiremos de nada disso. E você ainda pretende evitar pensar no assunto?

Já parou pra pensar em que tipo de morte prefere? “Ah não, não quero morrer nunca.” Mas você vai, criatura. Então sugiro que pense nisso logo. Pense na morte antes que ela venha, porque quando ela chegar, você não terá condições nem de escolher roupa, penteado, terço na mão, mãos cruzadas no peito, maquiagem fresquinha, caixão acolchoado, cemitério-jardim ou cremação. Nesta parte, você já terá ido nessa. Então, acho melhor se preocupar com a sua vida.

Você pode optar por levar uma vida boa e melhorar diariamente; assim morrerá em paz. Você pode também optar por ser um filho da puta e morrer como tal. A morte não melhora ninguém. As pessoas que ficam irão te prantear, ficar enlutadas, mas depois de um tempo, você será só uma saudade, uma lembrança. Se passar a vida fazendo a diferença positivamente, será mais do que isso – um santo, um ícone, quem sabe. Se fizer o oposto, será apenas um filho da puta que morreu. E já foi tarde.

O tal de carpe diem deve ser isso: viva uma boa vida, não se esqueça de que é um ser humano e vai morrer. Desde quando o homem descobriu esta verdade, modificou-se o curso da humanidade. Modifique o curso da sua vida também. Viva bem. Morra bem.

Essa vida é uma piada. Você morre, ela continua.


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