Publicado por: Vevila | 22 22UTC maio 22UTC 2010

Sonho de Moça

Eram 7 da manhã. Domingo. Ora, seria muita loucura levantar-se da cama num domingo às 7 da manhã, se não fosse por uma causa nobre.

Causa que se concretizaria às 11 h, na igreja perto de casa.

Callas lilases, alstroemérias azuis, cravos brancos, rosas colombianas cor-de-rosa e orquídeas chuva-de-ouro. Tudo cuidadosamente aparado nos caules e amarrado a uma fita de cetim azul, com dezenas de fitinhas coloridas esvoaçantes. O buquê aguarda num jarro cheio de gelo até a boca.

As mulheres todas estão animadas. Há flores por todos os lados, o próprio dia parece florescer. Lá fora há tortas-mil-folhas, macarons, bem-casados, cupcakes, bombons e pirulitos; frutas, queijos, bolos, tortas, quiches e crepes, numa mesa de cores suaves, repousando sob a sombra de uma árvore.

E há flores. Amarelas, brancas, lilases, azuis, cor-de-rosa.

Há guardanapos de pano e pratos de louça.

E eram todas elas, noiva, madrinhas, damas, tias e avós, uma só primavera.

O vestido está num cabide, arejando as rendas. Florzinhas feitas à mão são minuciosamente costuradas ao longo dele, como se cada mulher da família fizesse por aqueles amantes uma oração de eternidade, de felicidade, de permanência e de fertilidade. O véu longo e transparente se estende até o chão do quarto.

Ontem havia chovido, então a grama estava assanhada e verdinha, meio úmida ainda, e brilhante. O sol resvalava nas toalhas de mesa e formava pequenos arco-íris em cada gotícula pendurada no capim.

Ela não queria nenhum luxo, somente o rústico, o caseiro, o cheirinho de bolo saindo do forno, o leve, suave, fresco, colorido. Assim ela antevia sua vida daquele dia em diante.

O amor estava fresco, as frutas estavam frescas, a manhã estava fresca. As fotos ficariam lindas.

A moça põe o vestido, põe o véu, contempla pela janela uma imensa solidão, uma imensa angústia, uma vontade infinita de romper o vento e os espaços. Vontade de nascer e de dar à luz.

Ata à cintura longas fitas de cetim azul e amarelo.

Todas concordam que ela emana luz.

Já são 10:45.

A noiva salta do abismo e decide que é hora de dar seu sim.


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