Publicado por: Vevila Dornelles | 22 de maio de 2010

Sonho de Moça

Eram 7 da manhã. Domingo. Ora, seria muita loucura levantar-se da cama num domingo às 7 da manhã, se não fosse por uma causa nobre.

Causa que se concretizaria às 11 h, na igreja perto de casa.

Callas lilases, alstroemérias azuis, cravos brancos, rosas colombianas cor-de-rosa e orquídeas chuva-de-ouro. Tudo cuidadosamente aparado nos caules e amarrado a uma fita de cetim azul, com dezenas de fitinhas coloridas esvoaçantes. O buquê aguarda num jarro cheio de gelo até a boca.

As mulheres todas estão animadas. Há flores por todos os lados, o próprio dia parece florescer. Lá fora há tortas-mil-folhas, macarons, bem-casados, cupcakes, bombons e pirulitos; frutas, queijos, bolos, tortas, quiches e crepes, numa mesa de cores suaves, repousando sob a sombra de uma árvore.

E há flores. Amarelas, brancas, lilases, azuis, cor-de-rosa.

Há guardanapos de pano e pratos de louça.

E eram todas elas, noiva, madrinhas, damas, tias e avós, uma só primavera.

O vestido está num cabide, arejando as rendas. Florzinhas feitas à mão são minuciosamente costuradas ao longo dele, como se cada mulher da família fizesse por aqueles amantes uma oração de eternidade, de felicidade, de permanência e de fertilidade. O véu longo e transparente se estende até o chão do quarto.

Ontem havia chovido, então a grama estava assanhada e verdinha, meio úmida ainda, e brilhante. O sol resvalava nas toalhas de mesa e formava pequenos arco-íris em cada gotícula pendurada no capim.

Ela não queria nenhum luxo, somente o rústico, o caseiro, o cheirinho de bolo saindo do forno, o leve, suave, fresco, colorido. Assim ela antevia sua vida daquele dia em diante.

O amor estava fresco, as frutas estavam frescas, a manhã estava fresca. As fotos ficariam lindas.

A moça põe o vestido, põe o véu, contempla pela janela uma imensa solidão, uma imensa angústia, uma vontade infinita de romper o vento e os espaços. Vontade de nascer e de dar à luz.

Ata à cintura longas fitas de cetim azul e amarelo.

Todas concordam que ela emana luz.

Já são 10:45.

A noiva salta do abismo e decide que é hora de dar seu sim.

Publicado por: Vevila Dornelles | 1 de abril de 2010

Memento Mori

Ele faleceu. Eufemismando, fez a passagem. Bateu as botas, dobrou o espigão, viajou, entregou a alma a Deus, partiu, foi pra terra do pé junto, expirou, foi comer capim pela raiz, vestiu o paletó de madeira, deixou este mundo, descansou, adormeceu, alcançou êxito letal, entrou em óbito. Morreu, simplesmente.

Fazia parte daquela pequena confraria de negros batistas, que então o velaram entre cânticos e o sepultaram da mesma forma. Sepultaram-no ao som de spirituals e, ao cair da tarde, saindo do cemitério, cantaram When The Saints Go Marchin’ In. Ou mesmo Glory Glory Halleluja. Quem sabe até Oh Happy Day. Fecharam os portões e ali ficou o ex vivente, agora mais um nobre habitante de uma das muitas necrópoles da Terra. E os ainda viventes… estes vão viver. Até o fim.

Essa vida é uma piada. Você morre, ela continua.

Num mundo em que todo mundo almeja somente a felicidade e uma vida infinita, a mínima menção da finitude da vida é ofensiva. Morrer é impensável. A morte dos amados é enlouquecedora.

Mas reflita. Este corpo que você malha diariamente, alimenta com orgânicos, descansa com belas noites de sono, cobre de metais nobres, veste com algodão egípcio, tatua, maquia, masturba, depila… este corpo vai morrer. Simplesmente vai perder suas funções vitais, vai esfriar, ficar roxo e duro, depois vai inchar, derreter, feder repulsivamente, virar um monte de carne podre e chorume, depois um esqueleto amarelecido, depois o pó. Tornaremos a ser a matéria prima de que fomos feitos – terra. Do pó viemos, ao pó voltaremos. Ash to ash, dust to dust. Sad but true.

É pra isso que construímos impérios. Pra isso trabalhamos, estudamos, praticamos a arte, formamos família. Para morrer. E com esta expectativa, a única que certamente se confirmará, construímos pirâmides, Taj Mahals, Mausoléus de Halicarnasso. Mas não adianta. Nós não usufruiremos de nada disso. E você ainda pretende evitar pensar no assunto?

Já parou pra pensar em que tipo de morte prefere? “Ah não, não quero morrer nunca.” Mas você vai, criatura. Então sugiro que pense nisso logo. Pense na morte antes que ela venha, porque quando ela chegar, você não terá condições nem de escolher roupa, penteado, terço na mão, mãos cruzadas no peito, maquiagem fresquinha, caixão acolchoado, cemitério-jardim ou cremação. Nesta parte, você já terá ido nessa. Então, acho melhor se preocupar com a sua vida.

Você pode optar por levar uma vida boa e melhorar diariamente; assim morrerá em paz. Você pode também optar por ser um filho da puta e morrer como tal. A morte não melhora ninguém. As pessoas que ficam irão te prantear, ficar enlutadas, mas depois de um tempo, você será só uma saudade, uma lembrança. Se passar a vida fazendo a diferença positivamente, será mais do que isso – um santo, um ícone, quem sabe. Se fizer o oposto, será apenas um filho da puta que morreu. E já foi tarde.

O tal de carpe diem deve ser isso: viva uma boa vida, não se esqueça de que é um ser humano e vai morrer. Desde quando o homem descobriu esta verdade, modificou-se o curso da humanidade. Modifique o curso da sua vida também. Viva bem. Morra bem.

Essa vida é uma piada. Você morre, ela continua.

Publicado por: Vevila Dornelles | 21 de janeiro de 2010

A Mão e a Luva*

Ele tem mãos macias e olfato apurado. Veio até mim como um cão farejador. Farejou perfume novo e invadiu os espaços, transpôs a barreira do corpo e tomou minha mão de assalto, afagou-a e cheirou-a, como se fosse uma flor. Minha mão já fria deslizou na dele, em fuga, em desejo, em desespero, em contato – ele eletrizou-me os nervos e, então, eu perdi os sentidos: pensei que fosse beijar-me.

Olhei por longo tempo os lábios dele. A pele dos lábios dele, a textura dos lábios dele. Era uma faixa de areia litorânea, e aqueles lábios deviam ser tão quentes quanto a areia da praia.

Quem brinca com fogo, se queima. Eu lutava contra os instintos, mas via as mãos dele e meus instintos guerreavam contra mim uma guerra injusta. Era um mar de palavras, era a conversa bem nivelada, eram os olhos penetrantes, eram as mãos dele, as mãos dele, as mãos dele, as mãos dele. Era o eco das mãos dele na minha, o eco daquela pele deslizando, o eco do meu perfume nas narinas dele, o eco das palavras dele reverberando em meu ventre, que tremia, e aquele toque invasivo, o toque invasivo era o instinto pelo qual não me permitia levar.

Ele tomara minhas mãos e depois tomaria meu beijo, quente e turvo, e o céu ficaria nublado, rachado ao meio pelos raios, tempestade interna, ah, as mãos dele. Efeméride diurna, e ele não avançava além do perfume das minhas mãos, não avançava, e não avançaria enquanto eu não dissesse que sim.

Eu não disse que sim. Não disse que não. Minhas mãos disseram, ele disse, e se for pelas mãos dele, o sertão vai virar mar.

“Veio até mim

Quem deixou me olhar assim

Não pediu minha permissão

Não pude evitar

Tirou meu ar

Fiquei sem chão…

Menino bonito

Menino bonito, ai!

É tudo o que eu posso

Lhe adiantar

O que é um beijo

Se eu posso ter o teu olhar? (…)” – Céu

“— Eu também me apaixonei — disse Walden. — Me apaixonei de um jeito assim bem mundano.” (Candace Bushnell)

*Machado de Assis que me desculpe.

Publicado por: Vevila Dornelles | 17 de janeiro de 2010

Sobre Incêndios

Encostei-me na pia da cozinha para colocar os pratos sujos do almoço. Ele avançou, colocando as mãos nas minhas com firmeza.
Gente adulta não tem juízo. Minhas faculdades mentais não me pertenciam. Senti o avanço dele e não o contive – ele veio avançando como a noite, e preencheu todos os espaços, todos eles, todas as lacunas.
Roçou a mão nas minhas nádegas, virei-me. Era proteção, era protelação, era uma ânsia irresponsável de manter a taquicardia por mais tempo, hiperventilar, segurar o gemido. Virei-me, e ele avançou como o dia. Não me permitiu um beijo inteiro, apenas o ar, o vento, o hálito. Meus olhos voltaram para a escuridão, minhas mãos apertaram as bordas da pia. Ali, sobre saltos. Avançou ainda mais, o homem nos meus seios, homem no meu abdômen. Ergueu minha saia tão suavemente, como formigas que subissem minhas coxas. Tirou-me a roupa de baixo com as pontas dos dedos, tão suavemente que pensei que fosse eu mesma. Abriu-me as pétalas tão bruscamente que irrompi num gemido animalesco.
Beijou-me, ah, beijou-me, e eu tornei-me uma supernova, explodindo em partículas assassinas, desejando ser bebida de uma vez, sorvida qual bebida destilada, que queima. Abarcou-me um seio com a mão inteira, como se o protegesse, e seu beijo era longo, úmido, como longo e úmido foi senti-lo a me atravessar, como se pudesse partir-me em duas.
Ele possui-me sem saber. Ele possui-me como a um brinquedo. Possui-me, e é tão agressivo que dói. Possui-me em meio a nuvens, em meio à neblina e aos rolos de fumaça. Possui-me em meio a chamas e escombros, é o Super Homem, me carrega no colo.
E eu… eu ainda estou à beira da pia, sentada sobre ela, com o homem entre minhas pétalas, em meus seios, em meus sonhos.
Publicado por: Vevila Dornelles | 17 de janeiro de 2010

Valsa da Nova Veneza

Estava tangendo-me ao largo como quem toca um instrumento de cordas. Sua pele brilhava úmida, escorregadia, e ele me acariciava a orelha esquerda com a mão livre, devassando-me os cabelos, sua pelve contra minhas nádegas, valsando.

Foi o soçobrar de suas pestanas e a força de suas mãos. Quando me dei conta, minhas orelhas ardiam, meu colo ardia, meus lábios ardiam, e lá estava eu a lutar contra o pecado capital.

Ali e alhures está o corpo dele. A beleza do seu sexo, o cheiro da sua pele, seu hálito, que há de ser um hálito litoral. Há de me pôr a bailar nos quatro apoios, olhos de ressaca e arrependimento, sorriso impudico nos lábios. Ele é o mar e o diabo, tenta e afoga, e aqui estão meus lábios a arder novamente, meu pescoço em chamas, meu ouvido zumbindo uma melodia de ondas quebrando nas praias de Pernambuco.

Por ora, é sonho e pesadelo. E permanece onírico, no soçobrar das pestanas dele.

Publicado por: Vevila Dornelles | 3 de novembro de 2009

A Estrutura da Lembrança

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Difícil é entender como funciona a estrutura da lembrança. A recordação, batendo pungente na cavidade do coração, latejando nas veias das têmporas, ardendo por toda a extensão da pele do rosto. Essa tarde, fazendo compras num grande supermercado, aquele calor de aglomerações humanas, o barulho e a tensão do caixa e dos pagamentos, tudo conspirava para uma falta de atenção e uma displicência para com todas as outras coisas que não meu próprio umbigo. Mas, de tanto olhar para o meu umbigo, acabei levantando os olhos e me deparando com uns olhos que há muito não via, mas que me apareceram tão atuais, tão reais, tão concretos, aquele olhar como se nunca se tivesse desviado do meu, e a minha lembrança latejou, me remetendo àqueles tempos acadêmicos de sofás, cervejas e paixões inomináveis, coisas que só a seu tempo pertenciam e tendem, com o seu próprio tempo, a ficar domadas, mas a postos, para uma descarga de recordações que se aciona ao mínimo roçar de um olhar familiar.

Naquele sofá, sentaram-se os dois. Um horário de almoço tão tenso, e tão vazio. Eu e ele, sozinhos, desconstruindo o fosso, por uma ponte tecida pelos descaminhos da vida. Apesar da desconstrução do fosso, ele ainda fugia. As minhas pretensões saltavam aos olhos, dele e de todos, mas ainda assim não havia ninguém. Só pretendia a ele, que fugia e reconstruia o fosso.

Um dia fomos ao clube. Despretensiosamente, (já que a essa altura minhas pretensões se haviam desfeito), como amigos, deitamos ao largo da piscina, e falamos de sexo. Falamos de biquínis, de churrasco, de cachaça e de Geografia. Falamos de arte e de vida. E, pela primeira vez de fato, falamos. Alguém fez de nós uma fotografia, não sei se imaginando o eternizar daquele lado a lado. Uma de minhas mais belas fotografias, aquela que passou anos invertida no porta-retrato, indefensável, como aquela tensão que nos tangia por dentro, durante longos e longos tempos. Os olhos dele tensionados pela luminosidade, a minha cara de sono, as roupas de banho, tão pequenas, aparecendo como tiras de pano, estreitas. Parecia um filme de férias estudantis.

Depois desse dia falamos ainda muitas vezes. O fosso se havia fechado. E sempre falávamos das mesmas coisas: de sexo, de biquínis, de churrasco, de cachaça e de Geografia. Nossas frases tiveram sempre um tom coincidente, como se nossos superegos fossem peças distintas de um mesmo quebra-cabeça. Sentamos lado a lado e sorrimos, naquela tarde, como que prevendo, pressentindo a noite que teríamos. Lado a lado, bancos altos, no fundo da sala, a aula correndo a luzes difusas, ele me beliscou. Piscou. Eu só sorri: já sabia.

Naquela noite nós bebemos. Eu ainda não bebia de repente comecei a beber, e a sede que me consumia exigia algo fortemente contextualizado. Então, diante dele, abri uma long-neck. Fiquei curiosa por saber: por que Malzbier? Por que uma cerveja como aquela, numa situação como aquela, precisava ter um nome tão sonoro? De pronúncia tão farta e recheada de sons guturais? Talvez por isso, sob o efeito mais que relaxante do álcool da Malzbier, comecei a emitir sons guturais. Mais guturais e lânguidos do que os que emitira naquele fim de tarde, em que eu e ele nos falamos pela primeira vez de perto, regados a Antarctica e sob a luz de um abajur, no mesmo sofá do Centro Acadêmico. Ao lado dele.

Murmurei. Sussurrei. Emiti sons e mais sons de Malzbier, e ele me ouviu. Falamos, e sobretudo, de sexo. A mais murmurada, sussurrada e gutural das palavras soou pungente aos ouvidos dele. “Sexo? Então vamos.”. E nunca mais um drive-thru foi tão incendiado. Sim. O drive-thru, o banheiro de serviço, o carro do melhor amigo, o estacionamento.

Agora todas as nossas falas eram guturais. Falávamos mais e mais de perto, as bocas coladas num beijo tenso e arredio, de caráter ilegal, escondido por detrás de muros e véus.

Ele namorou. Eu sobrei. Sobrei conscientemente, sem dor ou satisfação. Apenas sobrei. Mas sobrei com majestade, e uma certeza de retorno que não me deixava dormir. Até o dia em que a comunicação explodiu. As letras escritas em um momento de solidão detonaram a barreira e, sucumbindo ao inevitável encaixe de nossas peças, colamos novamente os lábios num beijo de falas guturais adúlteras e cada vez mais ilícitas.

E fora adultério. Num tempo sem fim, sem liberdade. Colamos nossos lábios nas falas. E foi uma profusão de peitos, bundas, barrigas, putas, caralhos, bucetas e boquetes, prosódias impudicas e sujas, a fala se tornando corpo, se virando em carne, acima e além das convenções e proibições. A escuridão e a claridade, a noite ou o dia, tudo era cenário e ocasião, aquele sentimento de sei lá o que, invadindo nossas mentes e as esvaziando; quando juntos, éramos só carnes: coração e todas as outras carnes, aquele desejo de calor intraduzível, um sexto sentido que tomava nossos corpos e nos fazia insignificantes, fundindo-nos um no outro, fodendo, com ou sem a permissão da palavra. Os nossos olhares causavam uma febre que aguçava todos os nossos sentidos, e então éramos apenas um para o outro sem passado ou futuro, sem pretensões ou projetos; éramos apenas momento e desejo. Enfim, sem palavras para descrever a situação. Éramos tão além do espírito que fica impossível espiritualizar nossa vivacidade da carne.

Uma vez no meu quarto; o vento, o medo, o sol se derramando da janela, com uma impiedade que tornava possível ouvir o barulho de seu toque no chão, e nós na cama. Outras e muitas vezes no quarto, na sala, na cozinha, no elevador, no corredor e em todo o seu apartamento. Agora falávamos de sexo, sempre lado a lado e com os lábios colados. E não só falamos como fizemos. Fizemos sexo como adolescentes, e fizemos como gente grande. Fizemos onde pudesse, na hora em que desse, sem bloqueios de legislações ou exigências de depilações. Sem banho e sem mediocridade. Sem medo e sem responsabilidade.

E quando fazíamos, virávamos uma coisa só. Um amálgama de nuvens e supernovas, um monte de carnes frementes, que se separavam sem dor, ao final de cada carnaval dantesco e despudorado, que eram nossos encontros. Era mesmo assim que nos separávamos. Talvez com beijos, talvez não. Talvez com telefonemas, talvez não. Na verdade, não importava, porque sempre, planejando ou não, nos topávamos de novo, em movimentos ilícitos de pelve e de moral.

Nosso caso foi assim, em síntese, escandaloso. Conhecemos cada recôndito do corpo um do outro, cada orifício, sugando impetuosamente a fibra do nosso tempo, num ímpeto de paixão carnal só possível nos mais eróticos (ou mesmo pornográficos) escritos de todos os tempos. Flaubert se envergonharia. Nabokov se enojaria. Nossos fluidos, todos eles, trocados, derramados, espalhados, engolidos, lambuzando e recobrindo nossa pele, nossos dedos, nossa boca. Eu gostava dos pêlos dele. Gostava do seu cheiro, da sua pele, do seu peito e do seu abdome. Gostava dos seus olhos e do seu olhar, das suas pernas, da sua voz dizendo absurdos e obscenidades que me enchiam de lisonja e desejo, porque era a nossa comunicação interpessoal mais secreta, íntima e intransponível. E nunca senti remorso. Gostava, fazia, repetia, fazia outra vez, sem nunca sentir remorso. Algo inerente, que nunca soube explicar, me dava este direito. Era o meu poder, o meu lugar, quase que o meu dever, a minha meta, a minha vocação. E me sentia em casa.

O que aconteceu depois, não sei. Como acabou, não sei. Se ela descobriu, ou se eles casaram, não sei. Se nos apaixonamos ou nos odiamos, apesar de nunca termos deixado de ser amigos, não sei. E prefiro jamais saber. Sei que do escândalo do nosso caso, um “amor” maquiado ou um “desamor” inconformado, restaram aquelas supernovas profusas que brilhavam nos nossos olhos quando nos devorávamos de olhos abertos. E foi exatamente esse olhar, vindo direto dele, como quando estava por cima de mim, um olhar profundo e amalgamado de nuvens e supernovas, que vi, quando nos topamos hoje, na pressa e tensão de uma fila de supermercado, passados dez anos da nossa última despedida trêmula e úmida, talvez sem beijos, talvez não.

Publicado por: Vevila Dornelles | 25 de setembro de 2009

Shesmovedon

90283476Eu mudo, tu mudas, ele muda.

De dentro desta atmosfera de mudanças, escrevo e subscrevo.

Houve reforma na minha casa. Acabou há mais ou menos 1 hora. Mudei de quarto, joguei muito lixo fora; resgatei os pesos de Kegel, a máquina fotográfica, um chaveiro que meu irmão trouxe de Salvador, um vestido pouco usado.

De dentro do turbilhão, outras reformas ocorreram – e ainda estão ocorrendo.

Entrei no mundo dos mestrandos (ou aspirantes a), organizei um cronograma diário, troquei meu aparelho celular (o outro morreu de repente), trabalhei como modelo, aprendi a fazer pão. Fui à ginecologista, terminei o RPG, comecei a ler “Razão e Sensibilidade”. Assisti duas temporadas de Californication na sequência. Fui a um show da Angélique Kidjo.

Ouvi bronca. Foi ruim. Virei amélia e gostei. Ganhei novas cicatrizes.

Tive preconceito, sofri preconceito, fui criticada, fui elogiada. Pensei sobre o meio-ambiente, senti saudades de tempos passados, senti saudades de tempos futuros, fui a um show do Sepultura, mandei o meio-ambiente à puta que o pariu e comprei um coletor menstrual. “Não se nasce mulher, torna-se” – disse Simone de Beauvoir – e estou me tornando. É muito bom, muito forte, muito intenso.

Desejei ardentemente me conhecer por dentro, me virar ao avesso, fazer um silêncio tão intenso que tornasse possível ouvir meus cabelos crescendo. Quis invadir conscientemente meus sonhos, ir a uma cerimônia Wicca, rezar um terço e mandar fazer um padê. Quis fazer um curso de culinária, mas o dinheiro não deu. Quis fazer uma tatuagem, mas toda hora mudo de idéia. Quis saber de que matéria somos feitos, a que parte do universo pertencemos, quais são as diferenças entre nós, se os E.T.s existem. Quis voltar no tempo, corrigir os erros, repetir os erros, fazer melhor. Quis ser mais organizada, mais concentrada, mais disciplinada e menos rabugenta. Quis ser mais bagunceira, mais distraída, mais relaxada e menos engraçadinha. Eu quis ser um paradoxo no mundo: uma modelo vegetariana, gorda*, católica, bem-comida e feliz.

Eu quis e quero fazer e ser todas essas coisas. Estou em processo, acho que sempre estarei. Isso me irrita um pouco, mas de modo geral, me deixa feliz. É sinal de evolução. É sinal de que estou viva. E como estou.

A reforma em casa acabou, mas ainda falta a faxina. A reforma na vida continua, mas a faxina eu vou fazendo enquanto isso.

*Gorda porque, pelo que pude perceber no último trabalho como modelo, se você não tiver 10 kg  menos do que o valor da sua altura, você é gorda. Então, eu sou gorda, beijos.

P.S.: Eu vou voltar a usar o blog pro que ele se destina: falação. Vai me ajudar muito em outros aspectos do “quero fazer”.

Publicado por: Vevila Dornelles | 19 de julho de 2009

Fumaça

87982486O cigarro, e eu não fumo. Essa luminária passei meses juntando o troco do almoço pra comprar, ela funciona com uma pequena lâmpada halógena de 20 watts. Ilumina a mesa onde coloquei a noite num jogo de jantar barato de porcelana Schmidt. Não tenho muita vontade de jantar hoje.

As horas passam desconexas, a uma velocidade diferente em cada relógio da casa. Uma sensação desconhecida de algo esmagando meu peito às vértebras, não tenho condições de voar. Nem mesmo de gemer. Tudo está distante, eu estou distante, mas não estranho isso, é o estado físico em que minha matéria se encontra. Volátil.

Eu não queria a vida desse jeito. Meus olhos ressequidos e opacos contra a tela, emboscando um arremedo de movimento, mesmo sabendo que não haverá captura, nem mordida, nem alimento. Fumaça.

(A luz hospitalar do monitor ilumina minhas mãos e elas estão envelhecidas, acariciando umas às outras em tom nervoso.)

“E continua o teu sorriso no meu peito. Essa saudade, o cigarro, a luz acesa. E esta noite posta sobre a mesa. Em cada canto da casa, asa partida e dor. Gemido morto, amor. Tão longe vai. Tão longe vou…”

(sob a inspiração de Raimundo Fagner na linda e dolorida canção “Asa Partida”. Ninguém fala de saudade como ele.)

Publicado por: Vevila Dornelles | 18 de julho de 2009

Eu volteeei…

Juro que volto a postar, meus 0.4 leitores. Tô escrevendo na cama e amanhã publicarei. Saravá.

Publicado por: Vevila Dornelles | 25 de abril de 2009

Mess Around

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Eu não consigo me organizar.

Tenho 2 agendas, 1 computador, 1 celular, 1 quadro de avisos, 1 porta-recados, 1 despertador e nada – não consigo me organizar.

Olho ao redor e está tudo espalhado. Papéis, garrafas, roupas, calçados, fios, frascos, cremes, blisteres de comprimidos. E por mais que eu compre cabides, gaveteiros, caixas, criados, estantes, está tudo fora de lugar. Isso me enlouquece.

Eu já tenho rugas. “Marcas de expressão”, na verdade. Comprei um anti-sinais de primeira qualidade, mas tenho ido para a cama tão tarde que nunca lembro de usar. Tiro as roupas, jogo para o lado, elas pousam sobre uma cadeira, e depois umas sobre as outras. Vira uma árvore de Natal. Eu juro que tenho um cabideiro, mas a preguiça de pendurá-las retas e esticadas é maior do que eu. E vou dormir às duas da manhã, com a pele cheia de óleo e restos de rímel e minha cama cercada de árvores de Natal.

E os papéis. Odeio papéis. Já sonhei digitalizá-los todos e salvá -los no HD, pra depois incinerá-los. Eles formam montanhas de celulose sobre as superfícies, e eu nunca sei quais posso jogar no lixo. Já chorei muito sobre o papel incinerado.

Eu tenho um ciúme infeliz. Se você for como eu, nunca ligue para um homem sexta-feira à noite, quando você não está com ele.

Já tenho o tênis, as roupas, o programa de corrida e os quilos a mais, mas não consigo começar a correr.

Eu tenho muita raiva de algumas coisas. Mais de coisas do que de pessoas, o que já é um bom começo.

Eu tenho pensado em ser mãe. Depois penso em tudo isso e mudo de idéia.

Eu tenho dívidas, cólicas, amigos, dinheiro, idéias, preguiça, trabalho, receitas, roupas, móveis, papéis, diplomas, raiva, ciúmes, amor. E não, definitivamente, não consigo me organizar.

O que eu não tenho é vergonha na cara.

Mas tenho vivido um bocado. (Ainda bem.)

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